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A história por trás da história #3

No post de hoje, deixo a Suellen Venturini contar a história.

Todo mundo já passou ou vai passar aquele aperto de estar precisando muito fazer xixi sem ter um banheiro por perto. Sim, mas o que isso tem a ver com a foto desse senhorzinho sorridente aí em cima? Pois bem, é a história por trás da história.

Em uma tarde comum de trabalho no Jornal de Santa Catarina, em Blumenau, no ano de 2013, eu – até então assistente de conteúdo do Santa- e o fotógrafo Lucas Amorelli fomos liberados para andar pela cidade a procura de boas pautas. Isso de sair despretensiosamente, aliás, é uma prática quase extinta do cotidiano de jornais. Infelizmente, por falta de tempo, equipe, ou até por pouca crença no método, os jornalistas da atualidade estão cada vez mais distantes da rua e mais dentro das redações.

Quando a entrevista não é feita por telefone, por vezes, a orientação ainda é sair a campo sem gastar muito tempo. Fazer uma entrevista rápida. Voltar logo. Isso, com certeza, tira um pouco do brilho da profissão. Afinal, como levar boas histórias até as pessoas sem liberdade para descobri-las, para garimpá-las? Mas essa é uma longa reflexão. Voltemos à história.

Estamos então, eu, Amorelli e o motorista Adonis, andando de carro pela cidade. Era um dia típico de sol e calor em Blumenau e decidimos subir um morro do bairro Itoupava Central, onde meses antes havia nevado. Eu, empolgada em conhecer um lugar novo, acabei não prestando atenção aos sinais do corpo. Subindo, fomos surpreendidos por uma chuva, daquelas torrenciais, de fim de tarde (quem é de Blumenau ou conhece vai saber do que estou falando).  Mesmo assim continuamos subindo, guiados pelo valente Adonis.

A chuva só ia aumentando e as casas e chácaras ao longo da estrada diminuindo, até que só se viu barro, água e mato. Foi quando, antes mesmo de chegar ao nosso destino – o lugar onde nevou, enfim caí em mim. “Pessoal, vocês vão querer me matar, mas eu preciso muito fazer xixi!”, anunciei no banco de trás.  Todos rimos, mas eu menos. Tinha que me segurar, ainda sem ideia de como resolver aquele problema e atormentada pela água a minha volta (se quando se tem pouca vontade abrir uma torneia ajuda, imaginem quando se tem muita vontade e está chovendo!). Se bem me lembro, as sugestões dos rapazes era me aliviar em baixo da chuva mesmo, atrás do carro ou na mata. Não ia dar certo.

Adonis deu meia volta com o carro e decidimos parar na primeira casa que se fosse vista e pedir para eu usar o banheiro. Aí parecia que as casas naquele lugar haviam desaparecido. Na minha percepção, anos se passaram até que avistamos uma moradia das mais simples. Paramos. Embaixo de muita água, Amorelli – que estava no banco do carona – abaixou o vidro e pediu para o senhor se aproximar. Gritou que eu precisava ir ao banheiro, mas naquela chuva toda duvido o homem ter escutado. Mesmo assim ele se aproximou, sorridente e solícito, com seu guarda-chuva laranja. Eu saí do carro e expliquei a situação o mais rápido que pude. “O banheiro é ali”, apontou. “Só que não tem luz”, ele disse. Não importava. Corri. Mesmo sem energia elétrica e nas condições de uma casa muito simplória foi provavelmente a melhor aliviada da minha vida.

Agradeci meu salvador – que lamento muito não ter perguntado o nome – e voltei para o carro. Foi quando Amorelli, que sempre anda com a câmera a tira colo, mostrou as fotos que fez em meio toda aquela agonia. E olha, mesmo sendo chamada de “mijona” nos dias que se seguiram, digo que valeu a pena. A bela foto foi parar até em uma exposição sobre os bairros da cidade. Para mim, além de uma lembrança engraçada, a imagem guarda a simplicidade e generosidade que pode existir por trás de todo sorriso.

 

Por Suellen Venturini

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